Henrique Teixeira de Sousa

 

 Updated May 16th, 2006

 

Teixeira de Sousa, writer and physician, dead at 87. 1

Read more about Teixeira de Sousa and his work. 2

Portuguese Association of Writers pays homage to Teixeira de Sousa. 2

Teixeira de Sousa - Quase um século entre a medicina e a cultura. 2

Henrique Teixeira de Sousa morreu esta manhã atropelado em Oeiras. 4

Teixeira de Sousa: “O médico anda com muitos ciúmes do escritor”. 5

Teixeira de Sousa (Por: Luís Lourenço, Presidente da Sopeam) 10

 

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Teixeira de Sousa, writer and physician, dead at 87    

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=16229  03-03-06      

 

Cape Verdean writer and physician Henrique Teixeira de Sousa, the author of classics such as Contra Mar e Vento and Ilhéu de Contenda, passed away today, Friday, March 3, in Portugal, where he had been living since the 1970s. Teixeira de Sousa, who died after being hit by a car in Algés, was 87.

 

The first texts written by the physician were published in periodicals such as Boltim Cabo Verde, Certeza and Claridade. His first book, Contra Mar e Vento, a collection of short stories, was published in 1972 and established the name Teixeira de Sousa as a major name in Cape Verdean literature. In 1977 he published the acclaimed novel Ilhéu de Contenda, which was later adapted to the big screen by Leão Lopes.

 

In the following years, Teixeira de Sousa published a number of other titles, making him one of Cape Verde’s most prolific writers. These books included Capitão de Mar e Terra, Xaguate, Djunga, Na Ribeira de Deus, Entre Duas Bandeiras and, most recently, Ó Mar de Túrbidas Águas.

 

Although he was best known for his contribution to the literary panorama of his home country, Teixeira de Sousa was a man interested in various other aspects of Cape Verdean culture and life. He was one of the first intellectuals, for example, to write about problems related to nutrition in Cape Verde, through articles published in the Boletim Cabo Verde. He was also the mayor of the municipality of São Vicente in the 1960s.

 

For personal and political reasons, he moved to Portugal in 1975, and proceeded to produce most of his literary oeuvre there. A resident of Oeiras, where he had his physician’s office, he practiced his professional until the present, despite his age.

 

Several months ago, Teixeira de Sousa was in Cape Verde and was paid homage by the São Vicente municipal chamber. He had previously been distinguished by the authorities of his native island, Fogo, where the largest hospital, located in the city of São Filipe, bears his name. The deceased, who was hit by a car today in the city of Algés, in Portugal, had also been distinguished by the Portuguese State for his contribution toward the strengthening of the ties of friendship between Portugal and Cape Verde.

 

Read more about Teixeira de Sousa and his work

Portuguese Association of Writers pays homage to Teixeira de Sousa   

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=16266  05-03-06      

 

The Portuguese Association of Writers expressed its sorrow today at the death of Cape Verdean physician and writer Henrique Teixeira de Sousa, “whose status has long been reason for exceptional recognition.”

 

Association president José Manuel Mendes affirmed that works such as Contra Mar e Vento, Ilheu de Contenda, Na Ribeira de Deus, Xaguate, Capitão de Mar e Terra, Djunga, Entre Duas Bandeiras and Oh Mar de Turbidas Vagas consecrated Teixeira de Sousa as “a major fictionist attentive to social reality - in the line of neo-realism and with a commitment that sought the renovation of forms and proposals, with a scientific and humanistic background that allowed him to stand out within the context of Portuguese-language literatures.”

 

Mendes also considered Teixeira de Sousa’s presence among Portuguese writers to have been that “of na active companion with a critical sense, generosity and spirit of sharing.”

 

Teixeira de Sousa was fatally struck by a car Friday in Lisbon suburb Oeiras, where he had lived for over 30 years. His funeral, which is expected to be attended by Cape Verdean President Pedro Pires, will take place this week. The exact date has yet to be determined.

Teixeira de Sousa - Quase um século entre a medicina e a cultura

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=16384  02-04-06

S. Lourenço, 1919 - Oeiras, 2006

Medicina e cultura. Henrique Teixeira de Sousa atravessou quase um século equilibrando-se entre estas duas áreas. Fez os milagres que os médicos do seu tempo tinham de fazer, quando havia apenas um para toda uma ilha; especializou-se em nutrição, numa altura em que as fomes devastavam Cabo Verde periodicamente.

Produziu oito romances que são verdadeiras reportagens dado o feitio realista que sempre o caracterizou, sem contar as recolhas da tradição oral que fixou em texto.

Ao longo da sua longa vida profissional - até ao fim atendeu os seus clientes diariamente no seu consultório em Oeiras - passaram pelo seu gabinete personagens históricos da cultura cabo-verdiana. Como, por exemplo, Príncipe de Ximento e Ana Procópio, quando era um jovem médico no Fogo. Enquanto estudante em Lisboa, nos anos 40, encontrou-se com B.Léza, já paralítico, para quem tentou marcar uma consulta com o célebre Egas Moniz.

Desde criança gostava de ouvir histórias do povo, dizia em entrevista ao A Semana no ano passado, por ocasião do lançamento do seu último livro. “Os meus colegas diziam-me: `Tu deves ir para a Faculdade de Letras’. E eu respondia: `Não, eu gosto é das Ciências Naturais’.

É verdade, desde criança que sonhava ser médico e eles sabiam disso, mas não havia meio de os convencer. Sabe, as pessoas não têm apenas uma tendência. Podem ter tendências várias sem que uma brigue com a outra. Inclusive, como médico venho conhecendo cada vez mais a psicologia humana, o que também me dá uma certa ajuda na elaboração das minhas personagens”.

Nascido na localidade de S. Lourenço, na ilha do Fogo, faz os seus estudos de Medicina em Portugal, concluindo-os em 1945. No ano seguinte parte para Timor, e é em 1949 que regressa à sua ilha, onde vai encontrar o edifício construído para ser hospital transformado num albergue dos flagelados pela fome.

Consegue o seu realojamento, relatou-nos numa entrevista em 2004, e implanta finalmente o hospital, e mais tarde uma maternidade. Em 1954, com uma bolsa de estudos, parte para França, onde se especializa em nutrição. Produz vários textos sobre este tema. São dois anos na Europa, após os quais fixa-se em S. Vicente, onde será o presidente da Câmara Municipal, de 1959 a 1965. Em 1975, passa a residir em Portugal definitivamente.

Na entrevista ao A Semana em 2005, o escritor manifestava o que lhe faltava produzir em termos literários: “Só não sei se os anos da minha vida me chegam para escrever”, referia, indicando duas histórias, uma das quais sobre o avô, um grande proprietário na localidade de S. Jorge.

O outro tema, “bastante lírico”, nas suas palavras, teria como título o verso de uma morna de Amândio Cabral - Na Madrugada dos Teus Olhos. Mesmo sem ter tido tempo de escrever esses dois livros, o incansável Teixeira de Sousa fica para a literatura cabo-verdiana como um dos seus autores mais produtivos.

Num comunicado em que exprimiu o seu “profundo pesar” pelo seu falecimento, o Governo salientou que Teixeira de Sousa “foi um escritor cioso dos valores da cabo-verdianidade e das marcas matriciais do viver cabo-verdiano”.

Apontando a sua trajectória “marcada pela coerência cívica, patriótica e intelectual”, o comunicado assinado pelo ministro da Cultura salienta que personagens, momentos e aspectos dos seus livros “ficarão para sempre inscritos na memória colectiva dos cabo-verdianos e que, por isso, já são preciosos patrimónios culturais a preservar e valorizar”.

Por sua vez, o presidente Pedro Pires, manifestou o seu profundo pesar pela morte do escritor, “portador de uma escrita cativante e vigorosa” e que lega à cultura cabo-verdiana, diz o comunicado, “um património de inexcedível valor no domínio da literatura, impondo-se como um dos expoentes máximos da cabo-verdianidade”.

O presidente da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (AEC), Corsino Fortes, considerou, que a grande homenagem que se pode fazer a Teixeira de Sousa, é “concitar os jovens a lerem a sua obra” e fazer tudo para que a “sua obra seja divulgada com a maior extensão possível”.

Em declarações à Inforpress, Fortes referiu-se a Teixeira de Sousa como “um homem muito sui generis”, porque, como explicou, ele “começa a tecer uma literatura na base de um estudo sociológico e com uma profunda noção filosófica sobre essa estrutura social”.

O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes, referiu-se a Teixeira de Sousa “como um ficcionista de largo fôlego”, cuja formação científica e humanista “o singularizam peculiarmente no contexto das literaturas em língua portuguesa”.

Ilhéu de Contenda, a sua obra mais conhecida, adaptada para o cinema por Leão Lopes nos anos 90, surgiu de forma embrionária na segunda metade dos anos 40 e chegou a ter título - Sobrado, refere o escritor, num dos seus artigos no jornal Terra Nova, de que era colaborador. Foi cerca de 30 anos depois, a residir em S. Vicente, que retomou a história, contando com o estímulo de Nho Roque (António Aurélio Gonçalves).

Os últimos anos do salazarismo não seriam favoráveis à publicação, pelo que foi só depois do 25 de Abril que começou a percorrer as editoras para a publicação, o que veio a ocorrer em 1978.

Gláucia Nogueira

Obras publicadas

FICÇÃO

-   Contra Mar e Vento, Lisboa, Prelo, 1972 (contos).

-   Ilhéu de Contenda, Lisboa, Editorial O Século, 1978. Reed. em 1979 pela Europa-América e em 1984 pela Ática (S. Paulo, Brasil), (romance).

-   Capitão de Mar e Terra, Lisboa, Europa-América, 1984 (romance).

-   Xaguate*, Lisboa, Europa-América, 1987 (romance).

-   Djunga, Lisboa, Europa-América, 1990. (romance).

-   Na Ribeira de Deus*, Lisboa, Europa-América, 1992 (romance).

-   Entre Duas Bandeiras, Lisboa, Europa-América, 1994 (romance).

-   Oh! Mar de Túrbidas Vagas, S. Vicente, Ilhéu, 2005 (romance).

* Compõem uma trilogia com Ilhéu de Contenda

OUTRAS OBRAS, segundo Manuel Ferreira em A Aventura Crioula:

“Da Claridade à Certeza”, in Certeza - folha da Academia, n.° 2. S. Vicente, Junho 1944.

O problema alimentar em Cabo Verde. Praia, Cabo Verde, Imprensa Nacional, 1954.

Cabo Verde e a sua gente. Praia, Cabo Verde, Imprensa Nacional, 1959.

Mais de cinco anos na presidência da Câmara Municipal de S. Vicente. Ed. do Autor. Águeda, Gráfica Ideal, s/d.

Em Claridade:

-  “A estrutura social da ilha do Fogo em 1940”, Claridade n.° 5, Setembro 1947.

-  “Sobrados, lojas e funcos. Contribuição para o estudo da evolu¬ção social da ilha do Fogo”, n.° 8, Maio 1958.

Em Cabo Verde - Boletim de Propaganda e Informação:

-  “Recolhas folclóricas - curcutiçam (ilha do Fogo), n.°s 63 (Dez. 1954) e 67, (Abril 1955);

-  “A emigração para S.Tomé”, n.° 65 (Fev. 1955);

-  “A alimentação e saúde nas ilhas de Cabo Verde”, n.° 92 (Maio 1957).

Textos de Teixeira de Sousa encontram-se também em várias colectâneas, a primeira das quais editada em 1942, Contos e Poemas - Modernos Autores Portugueses.

 

Henrique Teixeira de Sousa morreu esta manhã atropelado em Oeiras            

sexta-feira, 03 março 2006     

http://portaldecaboverde.com/p14/index.php?option=com_content&task=view&id=1494&Itemid=88

 

O escritor, cientista e médico cabo-verdiano Henrique Teixeira de Sousa morreu esta manhã atropelado em Oeiras, cidade portuguesa onde vivia e ainda exercia medicina. Teixeira de Sousa faria 87 anos em Setembro e morre como outro esteio da literatura cabo-verdiana, António Aurélio Gonçalves, em 1984.A fonte foi a embaixada cabo-verdiana, que transmitiu logo a notícia dolorosa ao Governo, mas ainda estava a tratar de saber pormenores. Mais tarde, "P14" veio a saber, através da reportagem de Marco Rocha, que Teixeira de Sousa tinha sido atropelado durante a sua habitual caminhada matinal, que o ajudava a manter a forma física e intelectual com tão provecta idade. Teixeira de Sousa tinha estado em Cabo Verde no segundo semestre de 2005, para lançar a sua última obra "Ó Mar de Túrbidas Vagas", simultaneamente uma homenagem a seu pai, um "velho lobo do mar" e ao grande Eugénio Tavares, outor de verso tão sublime. O autor da obra-mestra da literatura cabo-verdiana “Ilhéu de Contenda”, tanto como romance como enquanto análise da evolução da sociedade foguense, nasceu no Fogo a 9 de Setembro de 1919 e licenciou-se em Medicina em Lisboa em 1945, tendo frequentado no ano seguinte o Instituto de Medicina Tropical do Porto, antes de se estrear no terreno em Timor. Teixeira de Sousa fixou-se no ano seguinte na sua ilha natal do Fogo, onde foi notável a sua acção em prol de estruturas mínimas de saúde pública. Exerceu posteriormente em S. Vicente, até se aposentar em vésperas da independência e se fixar em Oeiras, onde acaba de morrer. Mas a faceta talvez menos conhecida de Teixeira de Sousa será a sua carreira internacional como nutricionista, durante a qual representou Portugal em múltiplos fóruns. O Governo de Cabo Verde reagiu imediatamente ao falecimento de Henrique Teixeira de Sousa, através do ministro da Cultura, Manuel Veiga, emitindo o seguinte comunicado: Reacção do Governo de Cabo Verde ao falecimento de Henrique Teixeira de Sousa O Governo de Cabo Verde, através do Ministério da Cultura, expressa profundo pesar pelo súbito falecimento do grande médico e escritor Henrique Teixeira de Sousa, ocorrido hoje, dia 3 de Março, em Oeiras, Portugal, onde residia com a família. Um dos expoentes da nossa literatura, Teixeira de Sousa foi um escritor cioso dos valores da cabo-verdianidade e das marcas matriciais do viver cabo-verdiano. Profundamente influenciado pelo Movimento Claridoso e pela geração dos nacionalistas na qual pontifica Amílcar Cabral, Teixeira de Sousa teve uma trajectória marcada pela coerência cívica, patriótica e intelectual. Nos seus livros – nomeadamente Contra mar e vento, Ilhéu de contenda, Capitão de Mar e Terra, Xaguate, Djunga, Na Ribeira de Deus, Entre duas Bandeiras e Oh Mar das Túrbidas Vagas –, emergem aspectos, momentos e personagens que ficarão para sempre inscritas na memória colectiva dos cabo-verdianos e que, por isso, já são preciosos patrimónios culturais a preservar e a valorizar. Henrique Teixeira de Sousa nasceu na Ilha do Fogo há 86 anos e residia desde a sua juventude em Portugal, onde granjeou galardões e reconhecimentos como “homem de letras”. Nestas ilhas, Teixeira de Sousa foi celebrado como uma das bandeiras da cabo-verdianidade, em gestos de homenagens públicas e privadas, destacando-se aquelas levadas a cabo pelo Governo de Cabo Verde. Nesta hora de dor e de luto, o Governo de Cabo Verde junta-se ao povo cabo-verdiano para chorar e prestar homenagem a Henrique Teixeira de Sousa, um dos nossos “Homens Grandes”, expressando sentidos pêsames aos seus familiares e aos homens e mulheres criadores de Cultura desta Nação Global Cabo-verdiana. Praia, 3 de Março de 2006 MANUEL VEIGA /Ministro da Cultura/ “P14” regressará ao assunto ainda hoje, com um texto menos acelerado. Manuel Delgado

 

 

Teixeira de Sousa: “O médico anda com muitos ciúmes do escritor”     

           

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=13314  12-11-05      

 

É médico, mas Henrique Teixeira de Sousa é conhecido sobretudo como o escritor que deu ao imaginário cabo-verdiano histórias como Ilhéu de Contenda, Contra Mar e Vento, e Capitão de Mar e Terra. Agora, aos 86 anos, Teixeira de Sousa lança “Oh! Mar de Túrbidas Vagas”.

 

 

Um romance que relata a longínqua época em que os cabo-verdianos se aventuravam a atravessar o Atlântico para buscar a América, em frágeis barcos à vela. Mas desenganem-se aqueles que pensam que o filão que inspira o médico-escritor se esgotou. Teixeira de Sousa projecta ainda escrever mais dois livros, um de cariz histórico e outro lírico.

 

Por: Teresa Sofia Fortes

 

Iniciou a sua carreira literária por volta dos 17 anos. Mas como foi o despertar desse interesse pela literatura?

As minhas primeiras experiências literárias foram no liceu, em São Vicente. Andava eu no antigo quinto ano, que corresponde hoje ao 9º ano. O meu professor de português, que foi o dr. Baltasar Lopes da Silva, resolveu fazer um concurso de contos. Escrevi o meu conto, assim como os restantes colegas escreveram os seus. Calhou ser eu o contemplado com o primeiro lugar do concurso, com um conto cujo título em crioulo era: “Txuba ê k’ê nôs gobernador”. Isso foi publicado no jornal que nós tínhamos, um texto bilingue, em crioulo e português.

 

Mas, antes disso, quando criança, eu já tinha um certo gosto pelas histórias. Gostava muito, sobretudo quando íamos para o campo passar o verão. Tínhamos um guarda, ou caseiro, da nossa propriedade, o seu “nome de Igreja” era Higino Lopes, mas nós tratávamos-lhe por Preto, porque era realmente muito escuro. Ele contava histórias maravilhosas. Não havia rádio nem televisão nessa altura, e eu e o meu irmão sentávamo-nos no quintal a ouvir-lhe contar as histórias que, evidentemente, outras pessoas conheciam. E como ele dava uma ênfase especial àquilo que contava e do seu talento acrescentava muita coisa! Às vezes factos recentes e personagens reais que ele misturava com aquela ficção toda. E, então, apresentava-nos uma “djagasida” de ficção saborosíssima. A isso ele chamava “adubar” a história, ou seja, tornava as histórias mais ricas. E foi assim que começou a desenvolver-se na minha imaginação o desejo de um dia ser também um bom contador de histórias. Mas, também, havia a Amélia, nossa empregada doméstica - por acaso, até era nossa parente -, que sabia contar histórias maravilhosas.

 

Portanto, as minhas raízes de escritor vêm dessa época em que ouvia histórias populares. Os meus colegas diziam-me: “Tu deves ir para a Faculdade de Letras”. E eu respondia: “Não, eu gosto é das Ciências Naturais”. É verdade, desde criança que sonhava ser médico e eles sabiam disso, mas não havia meio de os convencer.

 

Sabe, as pessoas não têm apenas uma tendência. Podem ter tendências várias sem que uma brigue com a outra. Inclusive, como médico venho conhecendo cada vez mais a psicologia humana, o que também me dá uma certa ajuda na elaboração das minhas personagens.

 

E dessas suas histórias é “Ilhéu de Contenda”, sem dúvida, a mais conhecida, aliás foi adaptada para cinema por Leão Lopes. Segundo o ouvi dizer, começou a escrever esse romance em 1942 com o título “Sobrado”, mas rasgou o que já tinha escrito. É verdade?

Sim, o título era “Sobrado” porque resolvi enfrentar aquela época da ilha do Fogo em que as classes eram distintas. Comecei a escrever e, quando já tinha dois cadernos cheios, reli o que já tinha escrito, não gostei e rasguei tudo. Fiquei, então, à espera de uma oportunidade. Assim, passaram-se anos, até que, 30 anos depois, já com mais maturidade e uma visão mais perfeita do tema, escrevi finalmente o romance. Mas, ao decidir escrever o romance, andei um bocado de tempo indeciso sobre como havia de começar porque eu tinha a firme certeza de que começando iria até ao fim.

 

Uma ocasião, encontrava-me em São Nicolau de visita, porque a ilha não tinha médico e nós médicos íamos lá de vez em quando ver a situação dos doentes. Numa bela noite, estando eu naquele pequeno quarto do hospital de Ribeira Brava (que então se chamava Enfermaria), à luz das velas, ocorreu-me começar “Ilhéu de Contenda”. Então, sentei-me e escrevi o primeiro capítulo, que é o funeral de Nha Mariquinha, personagem que personifica uma senhora da alta sociedade que então tinha falecido e cujo corpo se encontrava na Igreja, precisamente a 10 de Agosto, dia de São Lourenço, em que havia muita festa, muitos cavalos, muitos foguetes, muita alegria à volta da Igreja, enquanto decorria a cerimónia religiosa em louvor ao Santo Padroeiro lá dentro. E enquanto o corpo de Nha Mariquinha aguardava o fim da missa para que depois o padre pudesse acompanhá-lo corpo até ao cemitério, porque era Agosto, havia calor e a senhora era assim um bocado nutrida, do caixão começaram a pingar aqueles fluidos pútridos, de um cadáver em decomposição, com um certo cheiro, simbolizando isto a decadência de uma classe que já começava a cair de podre e o início de uma outra, que é a sociedade dos mulatos.

 

Considera “Ilhéu de Contenda” a sua obra-prima?

Os meus leitores já me convenceram que, de facto, “Ilhéu de Contenda” deve ter sido o meu ‘chef d’ oeuvre’, como dizem os franceses. Talvez porque foi longamente pensado. Na altura, 1972, o livro era impublicável, mas tive sorte, pois veio o 25 de Abril e lá consegui publicar.

 

Outro livro seu que é um clássico da literatura cabo-verdiana é “Contra Mar e Vento”. Li num artigo, publicado no sítio electrónico caboverdeonline, que lhe dá grande satisfação saber que este livro faz parte do curriculum escolar. O que lhe dá essa satisfação extra, ser lido pelos mais jovens?

Sim, o acontecimento mais gratificante que tive em relação a “Contra Mar e Vento” foi saber que é lido pelos jovens do secundário. Uma ocasião, passeando eu ao longo da praia de Santa Maria, no Sal, cruzei com um grupo de raparigas dos seus 14/15 anos, e uma delas disse: “Este é que é o Teixeira de Sousa, autor de Contra Mar e Vento”. Parei, estive a conversar com elas e provaram-me que realmente conheciam o livro, citando este e aquele conto. Foi realmente um momento emocionante, isso pouco tempo depois do livro ser publicado.

 

Como é que “Contra Mar e Vento” surgiu?

Esse livro foi escrito aos pedaços. Cinco contos já tinham sido publicados em revistas, em Portugal. Para que não se perdessem, resolvi reuni-los em livro. Mas cinco contos eram poucos, de maneira que resolvi escrever mais cinco para compor um ramalhete de dez contos e poder publicá-los. E consegui, em 1972. O conto que mais emoção, para não dizer vulgarmente gozo, me deu ao escrever foi “Jocasta”. Estava eu por acaso só, em S. Vicente, na minha casa - a minha família nessa altura estava em Portugal - , com uma empregada doméstica que não dormia lá. Um dia, cheguei a casa vindo do hospital, já altas horas, mas não tinha sono e decidi ir ao escritório. Lembrei-me, então, de escrever o último conto que me faltava para compor dez contos como se fossem os dez dedos das minhas mãos. Já tinha o tema na cabeça, sentei-me à secretária e comecei a escrever. Mas a escrever quase que letra por letra tal era a minha emoção. Muito devagarinho, fui escrevendo pas à pas, sem dar conta de que o tempo passava. Na altura que terminava o conto, senti um ruído de chave na porta. Era a empregada doméstica que havia chegado, eram seis horas e tal. Ela viu luz no escritório e foi lá. Ao ver-me disse: “Adé, bocê ainda ta cordòde”. Olhei para o relógio e espantei-me ao ver as horas. Foi só tempo de lavar-me, tomar o pequeno-almoço e ir para o hospital. Mas ia satisfeito porque o conto me tinha saído tal qual imaginara. O Dr. Baltasar Lopes da Silva gostou muito do conto. Ele tratava-nos sempre na terceira pessoa e disse: “Você plagiou o título de um livro de Anatole France”. E eu disse-lhe: “Mas eu não conheço nenhum livro com esse título e não me importa, pois não era minha intenção”.

 

Até agora o seu último livro tinha sido “Entre duas bandeiras”, que saiu em 1994. Porque demorou tanto a voltar a publicar?

Calhou! Comecei a escrever contos nos anos 40 e só em 1972 é que comecei a publicar. Os meus colegas de profissão diziam: “Eh, pá! Tu és um chato, nunca mais escreveste nada”. Aliás, eu estava convencido de que nunca mais voltaria à literatura. A minha vida seria só a medicina. Mas voltei, pois era um destino tão forte do qual não poderia fugir. Uma ocasião, num jantar para distribuição de prémios literários da Sociedade Portuguesa de Escritores-Médicos, a que fui convidado para ser sócio, encontrava-se ao meu lado o meu grande amigo e muito maior escritor do que eu, Fernando Namora. Nessa altura, ele já tinha deixado a medicina para ser escritor profissional, como fez também o José Saramago.

 

Perguntei-lhe se não tinha saudades da vida de médico. Ele escreveu nos anos 50 um livro que se chama “Retalhos da vida de um médico”, que conta a sua experiência de médico da aldeia, mas de uma forma ficcionada. É um livro excelente. Pois, então, eu disse-lhe que estava fazendo aquela pergunta porque, na minha opinião, quem escreveu “Retalhos da vida de um médico” nunca mais poderia deixar de ser médico. Ele respondeu: “Tens razão, tenho muita nostalgia dos tempos em que fui médico na aldeia de Monsanto”. Mas eu nunca abandonaria a minha profissão de médico. Eu, ainda com esta idade que tenho, continuo a ir todos os dias ao meu consultório e sou médico, inclusive, de lares da terceira idade, onde encontro pessoas muito mais jovens do que eu. Quando lá vou, a minha mulher diz-me que vou visitar os meus colegas.

 

Mas, felizmente, voltou a publicar, neste ano de 2005, um livro cujo título é “Oh! Mar de Túrbidas Vagas”, um livro que, segundo disse durante a sua apresentação no Centro Cultural do Mindelo, começou a escrever nos anos 40, mas acabou igualmente por rasgar.

Sim, é verdade. Pensava na altura dar-lhe o título “O último veleiro”. Comecei a escrever, mas senti-o como um livro tão “naíf” que rasguei o que já tinha escrito. Até que chegou a altura certa e escrevi então “Oh! Mar de Túrbidas Vagas”. Deve ser o livro que menos tempo demorei a escrever. Se eu não tivesse os afazeres de médico, eu o teria escrito em um mês. Porque deito-me cedo. Às 10 horas da noite já estou na cama a dormir. E, às vezes, acordo às quatro e meia, cinco horas, levanto-me, vou à secretária, e escrevo uma crónica ou outro género de texto. E “Oh! Mar de Túrbidas Vagas” foi escrito quase todo de madrugada.

 

É um livro que fala um pouco da sua vivência pessoal, não é?

Sim, muitos factos que ocorreram durante a minha vida, e que constituem a minha experiência de cabo-verdiano, dessa época, estão no livro. Nós viajávamos em barcos à vela. Havia apenas um barco a motor que dava a volta às ilhas, mas não tinha vantagens nenhumas. Eu fui aos EUA num barco à vela que era do meu pai, marítimo e capitão de veleiro, de modo que guardo muitos conhecimentos marítimos dessa época, quando eu era ainda uma criança, sobre navegação, estrutura dos navios, etc.

 

E quando foi aos EUA ficou lá cerca de 14 meses com a sua mãe e seu irmão porque o seu pai, para não ser preso por transporte de passageiros clandestinos, teve que regressar a Cabo Verde. Como foi esse período passado aí?

Nós tínhamos lá parentes - um tio-irmão do meu pai e dois tios-irmãos da minha mãe, de forma que tivemos apoio. Ora estávamos numa casa ora noutra. O meu pai regressou a Cabo Verde, ficando em São Vicente. Ficou na casa de um amigo à espera que regressássemos no barco dele porque, o veleiro ficou lá. E, entretanto, o barco fez outras viagens, com outro capitão, porque o problema tinha a ver directamente com o meu pai. Depois regressámos numa viagem que demorou 42 dias.

 

Pode-se dizer, então, que “Oh! Mar de Turbidas Vagas” é um livro para ser lido pelas gerações mais jovens, principalmente àquelas que não viveram essa época - anos 20 - ou que dela não têm memória?

Sim, é uma fase da história de Cabo Verde que as novas gerações precisam de conhecer. E nós, os mais velhos, temos a obrigação de lhes dar a conhecer o que foi Cabo Verde nessa época longínqua, bem como a luta que os cabo-verdianos travaram para conseguir sobreviver.

 

Na sua opinião, já ganhamos ou estamos a ganhar essa luta pela sobrevivência?

Absolutamente. Já ultrapassámos de longe essa fase. Eu costumo dizer até que o mar cabo-verdiano não é actualmente o mar daquela época. O mar hoje não tem aquele sentido mítico. Actualmente só se ouve cantar esse mar nas mornas. E quem melhor cantou e celebrou artisticamente essa entidade - o mar - foi Eugénio Tavares com as suas mornas de partida e regresso, da saudade de deixar as ilhas, do desejo de ficar, da alegria de voltar, de “si ka badu ka ta biradu”. É por isso que na portada deste livro eu escrevi “Sob o signo de Eugénio Tavares, poeta do mar e do amor”. Mas ainda não é uma homenagem.

 

Quer dizer que, na sua opinião, a temática do mar não faz mais parte da literatura cabo-verdiana?

O mar já não faz mais aquele convite, a toda a hora, como escreveu Jorge Barbosa. Agora, com as novas tecnologias, o avião, os barcos a motor, o cabo-verdiano sai das suas ilhas não no mar mas por cima do mar, no ar.

 

E o que pensa sobre a nova literatura cabo-verdiana e os novos autores?

Eu confesso que não tenho um conhecimento muito profundo das novas produções literárias e dos novos autores porque tenho uma leitura literária muito diversificada, sempre no intuito de conhecer o que se escreve fora de Cabo Verde. Por isso, não posso pronunciar-me de maneira muito correcta acerca das tendências actuais da literatura cabo-verdiana. Agora, os temas que hoje são abordados são muito diferentes dos que nós outros, os claridosos, abordávamos e continuamos a abordar, nós os sobreviventes dessa época.

 

Acho que a nova geração já conseguiu romper com o cárcere das ilhas e tornar-se mais universal do que nós fomos. Éramos mais regionalistas do que os actuais escritores, estes são mais universalistas, o que eu acho muito bem. É a evolução necessária e compreensível porque os cabo-verdianos precisam, de facto, de não só sentir a necessidade de sair fisicamente da sua terra como também de evoluir espiritualmente. E, neste capítulo, Baltasar Lopes da Silva foi o precursor ao inserir no seu romance “Chiquinho” uma personagem muito curiosa e muito actual, que dizia constantemente que nós precisamos de universalizar a mentalidade cabo-verdiana. E dizia mais, precisamos romper com esta cortina de ferro que envolve as ilhas de Cabo Verde e sintonizarmo-nos com o mundo. É uma coisa fantástica, escrita nos anos 40, sem dúvida, no primeiro grande romance da literatura cabo-verdiana.

 

E, quanto a si, sente que ainda lhe falta escrever algum livro?

Sim. Só não sei se os anos da minha vida me chegam para escrever. São dois temas, sendo um histórico, de uma época muito recuada. O título seria “São Jorge”, que ocorre numa aldeia da ilha do Fogo com o mesmo nome, onde o meu avô era um grande proprietário. Ele seria, por assim dizer, a figura inspiradora, embora de uma forma distorcida para não ser um retrato, mas apenas uma recriação. Apesar de ser a figura mais importante da vila e aquele que tinha dois dedos de entendimento sobre diversos assuntos, o regedor não era o meu avô, mas um tipo um bocado boçal, boa pessoa, evidentemente, mas pouco letrado. O meu avô tinha a quarta classe, não escrevia mal e, por isso, era a ele que o regedor recorria para redigir certos ofícios que enviava ao administrador. O engraçado é que o meu avô foi nomeado cabo-chefe da região, ou seja, era um subordinado do regedor. Até uma ocasião em que foram encontrar um cadáver a balouçar de uma corda presa a uma árvore. O homem havia-se suicidado. Então, era preciso informar o administrador sobre o ocorrido. O meu avô não se encontrava lá na altura e como o regedor tinha que enviar um ofício ao administrador escreveu: “Esta manhã, fomos encontrar um cadáver espendurado do ramo de uma árvore de uma corda que ora vai ora vem” (risos). Esse bilhete foi a morte dele porque o administrador o despromoveu e, então, foi o meu avô que passou a ser o regedor. Hoje, quando vou ao Fogo ainda visito a aldeia de São Jorge, mas está um bocado diferente. Antes, era uma região muito interessante do ponto de vista agrícola, com muitas árvores de fruto. Ali até se fazia aguardente. Hoje, com as secas recorrentes, está mudada. Penso também escrever um romance bastante lírico (ainda não abordei o lirismo nos meus livros, pelo menos de forma intensa), cujo título seria o verso de uma morna de Amândio Cabral - “Na madrugada dos teus olhos”. Acho, realmente, que é uma frase muito bonita. É claro que teria de pedir licença ao Amândio Cabral para pôr esse verso como título.

 

Germano Almeida diz que temos um défice de reconhecimento em Cabo Verde. Sente-se, pessoalmente, reconhecido e querido pelos cabo-verdianos?

Sim, do ponto de vista literário eu não posso dizer que estou descontente a respeito do reconhecimento que todos os meus conterrâneos me têm dedicado a mim. De tal maneira que hoje sou muito mais conhecido como escritor do que como médico, sobretudo as novas gerações que se esqueceram completamente que sou médico. Hoje, quando venho a Cabo Verde apareço aqui como escritor. A não ser as pessoas mais idosas, que foram meus doentes e se achegam a mim para cumprimentar-me como seu antigo médico. Há dois anos fui homenageado pela Associação de Escritores de Cabo Verde, juntamente com Osvaldo Osório e Luís Romano, com todo o direito, diga-se. Lembro-me perfeitamente de ter tomado a palavra no fim da cerimónia: “Pois, queiram saber que Teixeira de Sousa, o médico, anda com muitos ciúmes do Teixeira de Sousa, o escritor” (risos).

 

Teixeira de Sousa (Por: Luís Lourenço, Presidente da Sopeam)

http://asemana.cv/article.php3?id_article=16555 21-03-06     

 

 

Depois de em pouco mais de um mês termos privado, várias vezes, com Teixeira de Sousa, remoçado literariamente com mais um dos seus romances, eis que nos chega, abruptamente, a notícia da sua morte, por atropelamento.

 

 

Pairava-nos ainda na memória um sorriso alegre, gaiato, quase infantil, que semanas antes lhe víramos, o que não nos permitia, aceitar, com a humana razão, o triste acontecimento. O lançamento do seu último livro e o convívio estreito com amigos de sempre, haviam-lhe trazido de volta uma serenidade de espírito de que, julgamos, andaria um pouco arredio.

 

Médico e escritor de grande mérito mas, continuando a exercer a clínica e a arte de escrever, na intimidade das paredes da sua residência e do seu consultório, em Oeiras, não teve Teixeira de Sousa oportunidade de receber a coroa de louros a que a sua mestria fez jus.

 

A sua humildade que tocava as raias da timidez, e a distracção dos críticos em relação à obra que produziu, não permitiram que o escritor gozasse, em pleno, o reconhecimento do seu mérito..

 

Vivendo em Portugal, há décadas, mas com a sua alma e as suas raízes bem cravadas na Ilha do Fogo, onde nasceu e foi delegado de Saúde; em São Vicente, onde foi Presidente da Câmara e exerceu clínica e, dum modo geral, em todo Cabo Verde a sua Primeira Pátria, Teixeira de Sousa foi o escritor Português que melhor soube cantar o mar e os que nele labutam. O mar que limita o esvoaçar dos seus conterrâneos e sobre o qual o seu corpo balançou, muitos vezes, ao sabor das vagas: Em criança, vendo nas águas revoltas as ameaças dum papão; e na adolescência e na maior parte da sua vida, retirando destas, como os pescadores retiram o sustento, os maiores eflúvios duma decantada inspiração.

 

Teixeira de Sousa deixou-nos oito obras de fino recorte literário, duas das quais já revertidas para o cinema: Contra Mar e Vento, Ilhéu de Contenda, Capitão de Mar e Terra, Xaguate, Djunga, Na Ribeira de Deus, Entre Duas Bandeiras e, agora, Ó Mar de Túrbidas Vagas.

 

Quando, há semanas, na Biblioteca da Ordem dos Médicos, em Lisboa, tive ensejo de tecer algumas considerações a seu respeito, que em nada maculavam a verdade, ouvi deste homem singular: “Obrigado pelas suas palavras, que fizeram muito bem ao meu ego”.

 

Consola-me, hoje, o que então dele ouvi. Mas entristece-me que a um homem de tanto mérito não bastasse a obra valiosa que produziu, como escritor, como médico e como cidadão, para alcandorar o seu “ego” aos píncaros da maior felicidade, que neste mundo é possível.

 

Estimado por todos e por nós SOPEAM, (Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos), a cujos corpos directivos pertenceu, estranhámos-lhe, nos últimos tempos, a longa ausência. Por isso o contactámos, várias vezes, para sabermos como estava de saúde e entusiasmo e do tão longo silêncio no retiro do seu “Vale de Lobos”.

 

Talvez o minasse algum daquele desânimo que nos invade quando vão restando poucos com quem possamos rememorar, nostálgicos, a juventude que, em comum vivemos. Mas outra seria, em parte, a razão dessa ausência: Teixera de Sousa esculpia e polia, em recato, a sua última e mais bem conseguida peça. literária. Estava, enfim, sem o saber, a rematar com chave de ouro a sua obra memorável.

 

Assim, enquanto nós lembramos, com saudade, o homem e o amigo, o seu espírito caminha, a passos largos, para a mais resplandecente luz da ribalta. Daquela ribalta onde só poucos têm reserva de espaço.

 

Mas, se a nossa estima e a nossa admiração por Teixeira de Sousa eram grandes na terra lusa, estas alcançava foros de idolatria no país que o viu nascer. Vimo-lo em olhos deslumbrados e escutámo-lo de lábios sorridentes de gente de Cabo-Verde, o país que, malgrado a nudez do seu solo, atrai sobre nós inexplicável magia e nos leva a retornar. Em Santa-Maria vi-lhe brilhar o vulto nos olhos de várias crianças que deambulavam sobre a areia branca e espoada, que o vento quente, vindo do Sara, para ali transportou, em asas milenares. Jovens que nos garantiram com orgulho, conhecerem o mestre pelos seus livros, cuja leitura é obrigatória nas Ilhas do encantamento. Mas também por ali o sentimos no sorriso aberto das jovens dum espaçoso restaurante, que na praia pousou, moças que interromperam as suas brejeirices inocentes, ao ouvirem o nome do seu ídolo.

 

Teixera de Sousa sobrepujará, doravante o gigante que, adormecido e estático, sobre um morro, emoldura a bela praia do Mindelo, nesse país que, à falta de recursos do solo e do subsolo, tem na cultura generalizada do povo sua maior riqueza.

 

Por ali, tal como nalguns países menos remediados, nos abordam crianças. Mas, ao contrário do que acontece noutros lugares e cidades, por esse mundo fora, não é dinheiro que nos pedem, mas lápis, borrachas e papel.

 

Tudo isto trará um acréscimo de lágrimas aos olhos ruborescidos de crianças, adolescentes e amantes da decantada literatura cabo-verdiana que este homem simples concebeu e gravou no papel.

 

Assim nos irmanamos, cabo-verdianos e portugueses, na dor de vermos seca a tinta que escorria da pena com que o ilustre luso-cabo-verdiano dava forma e corpo a alguns dos mais belos trechos ultimamente escritos na língua de Camões.

 

E, deste mesmo jeito nós, portugueses, enlaçaremos num mais fraterno abraço, os nossos irmãos das Ilhas, no dia em que mais uma estátua e um nome se juntarem à antiga toponímia cabo-verdiana que o bom senso dos naturais, para alegria nossa, ali quis e soube preservar.